quinta-feira, 17 de maio de 2012

...Outono, bem vindo!!...


Traga sua elegância silenciosa, sua complacência absoluta, sua capacidade de fazer-se notar; sem alarmes, sem surpresas...

Seja bem vindo céu límpido, com temperatura amena, seu vento discreto e sua capacidade de fabricar os dias mais perfeitos do ano...

Façam-se presentes seus projetos e minha imensa capacidade de embaralhar os pensamentos e encontrar não uma, mas doze ou treze conclusões...

Seja moroso em sua passagem, marcante em sua essência... Seja saturado de sinais indecifráveis e de descobertas surpreendentes...

Seja bem vindo Outono!! Minha casa é sua casa...

Faça-me encontrar novos caminhos, velhos amigos, antigas lembranças... Dê-me certezas que desmoronam e dúvidas sólidas, ambas cortantes...

Seja breve em palavras, extenso ao silenciar, desperte grandes aventuras e pequenas descobertas... Seja bonito seu cantar, desgastante sua melodia...

Que as cores falem!

Leve-me em seus braços, Outono; faça-me repousar... Que os sonhos sejam reais e que a realidade torne-se uma floresta ao pôr-do-sol...

Seja apenas Outono, nada mais!! Leve-me – mais uma vez – a reverenciar sua permanência e extrair de ti o alimento de minha essência!

"Uma névoa de Outono o ar raro vela
Cores de meia-cor pairam no céu
O que indistintamente se revela
Árvores, casas, montes
, nada é meu..." (
Fernando Pessoa)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

...Heitor...


Ele chegou de um modo inesperado, quase conturbado, um tanto desejado...

Ele encontrou seu lugar na casa, mostrou suas regras e marcou seu território...

Ele era homenageado a cada conquista, a cada ato e aprendia o tanto quanto ensinava...

Ele tinha o olhar doce, o andar engraçado e esparramava-se onde quer que desejasse...

Ele fugia aos aplausos, escondia-se no canto mais frio e, às vezes, enlouquecia...

Ele fez despertar em mim o espírito paterno mais latente...

Ele proporcionou em mim o instinto de defesa que jamais havia experimentado...

Ele era querido por todos, acariciado por todos, mordia a todos...

Ele arrastava pela casa as meias, os cadarços, os chinelos...

Ele esparramava por todos os cantos o que antes era alimento, agora brincadeira...

Ele precisava de outros ares e, nestes casos, jogava-se sem medo...

Ele foi o amigo mais fiel que alguém precisou, em determinado momento...

Ele foi a única alegria que alguém teve, em determinado momento...

E ele se foi... Deixou-nos... Heitor foi morar num céu que é só pra eles, para os amigos mais leais e fiéis.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

...Ironic...

E me sinto tão abalado, tão indeciso e tão frustrado, sim, sinto-me tão cansado (ironia!).

E os sorrisos são tão abertos, os braços gesticulam, os cabelos soltos ao vento... Tão amarelo sorriso, tão defeituosos braços, cabelos embaraçados...

Irônico!

E fazemos as mesmas coisas, bebemos da mesma água, deitamos na mesma grama... Insultamo-nos, julgamo-nos, condenamo-nos... Tão simpáticos e prepotentes...

Como formigas caminhamos na mesma direção, pelo cheiro... Pelo odor que vai tomando o ar, perseguindo nossos passos, guiando nossos iguais... Pra onde? Pergunte ao da frente...

Como um cardume (de piranhas) vemo-nos como iguais, isso até que a presa esteja ferida... E mais uma vez a podridão nos guia, talvez agora à morte, à procura de saciar a sede...

Morrer por ti! (irônico!)

Humano, demasiado Humano, advertiu Nietzsche! Não escutamos... E por que escutar um marinho? Certamente um aéreo, turquesa ou celeste... Marinho, jamais!

Sim, ironia. Ironia desperdiçar 148 palavras que certamente nunca estarão nas águas podres por onde nadas por nada.

Ironia ser eu tão irônico, ironicamente explanando em metalinguagem. Ironia!
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[Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo... (Raul Seixas]
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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

...A Estação...

Bom é poder voltar... Saber que os copos ainda estão cheios, as peças de xadrez nas mesmas posições e a cortina continua entreaberta...

Bom é ver olhos de espanto, expressões de surpresa, sorrisos um tanto quanto descrentes e ter certeza que aquele lugar nunca fora deixado pra trás...

Bom é estar ao lado de um amigo, tomar aquele café único, sentado naquele singelo banquinho, vendo a fumaça do cigarro subir e subir...

Bom é constatar que concretizou-se a profecia, que o sexto sentido não decepciona, que as nuvens cinzas compõem a paisagem do dia...

Bom é encontrar amigos que recebem com tapas nas costas, cascudos nas orelhas, alguns palavrões que se soltam no ar e risadas, muitas risadas...

Bom é poder voltar... Sem medo, sem culpa, sem receio... Bom é poder sentir que aquele nunca deixara de ser ‘o lugar’, ‘a estação’, o ‘PEO’, ‘a parada’...

Bom é poder ter os braços abertos: os meus, os seus, os nossos... Bom é poder fazer planos, recomeçar e ter a plena certeza que não será fácil – como sempre...

Bom é estar de volta à casa, à montanha, ao refúgio, ao vilarejo... Bom é poder saber que ‘voltar atrás’ não quer dizer que não está ‘indo enfrente’...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

...Solidão e só...

A solidão apodera-se, de tempos em tempos... Chega devagar, sorrateira, silenciosa e infinitamente mordaz. Com ela, a noite fica mais negra e rigorosa e por mais que tente desvencilhar-se, a escuridão toma conta do todo e reina, soberana.

Na solidão não existem mistérios, uma vez que tudo o que se tem é seu, só. Nenhuma frase é desconhecida, nenhum suspiro é perdido, nenhum olhar lhe é estranho; o que se tem é seu, e só. Só se fazem seus passos pela casa, o abrir da geladeira... Só e estridente é o barulho do suco preenchendo a taça, o som seco do carvão do isqueiro e o barulho do apagar da brasa caindo sobre a água.

Na solidão não existem dúvidas, uma vez que toda pergunta vem acompanhada de resposta, pronta, imediata, inconveniente. Nenhuma estrela é brilhante o bastante, nenhum barulho externo é forte o bastante e nenhum inseto da madrugada pode lhe assustar. Na luz da TV ligada, uma esperança de distração; na voz da moça cantante, o único acompanhamento, aquele que te leva distante.

Na solidão nenhuma respiração alheia inspira, nenhum afago seduz, nenhum amor é forte o bastante para extingui-la. Não há mão que guie, não há pés que te levem, não há abraço forte o bastante para confortar. Solidão, quando acompanhada, é sempre uma faca com dois gumes e o lado que fere mais é exatamente o que mais sofreu para tornar-se afiado. Solidão invadida e não resolvida, solidão só.

Na solidão vê-se o dia chegando, as luzes tomando conta de todos os espaços, o céu fazendo-se presente, indiferente, só. A claridade que invade somente toma conta do externo e chama pra um novo dia, porém não clareia a alma, não satisfaz o ego, não faz transformações psicológicas, físicas, neurológicas. Somente há o levantar do corpo, o qual ainda permanece inerte, programado, hipnotizado.

Assim, solidão e só... Só porque toda dor é sua, todo amor é seu, toda revolta é sua... Só. Só achegou-se, só ficou, só se vai.

[Caminho contra você, caminho das águas... Me leva, que quero ver meu pai (Maria Rita)]

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

...Lentissima voce...

Uma voz suave percorreu o ambiente do bar, à meia luz, acompanhada pelos dedos que tocavam as cordas do violão...

Assim como na música de Marisa Monte, palavras de ‘Gentileza’ foram expostas, nesta hora não escritas, mas proferidas num ritmo melodioso, em forma de boa música...

A letra, na composição, veio ao encontro dos meus anseios e fez-me mais uma vez refletir sobre pares de calçados que enfim andam não mais na perpendicular...

Entre sorrisos e pequenos gestos o “In Concert” acontecia, fazendo apaixonar-me pelo repertório, pelo ritmo, pelas frases e pelas lembranças...

Em momentos raros, em algumas poucas verdades que a música lhe dizia, o dono da bela voz esboçava um ar triste e podia-se ver, na alma, uma pequena lágrima rolar...

Fato é que, através seu repertório, pudemos viajar pela Europa e África, passando por cidades históricas, voamos de país a país e, definitivamente, só nos recusamos a tomar o European Train...

Já em final de noite, munido de seu violão e suas partituras, volta o jovem cantor ao seu aconchego, esperando uma noite de sono tranquilo...

Àquele rapaz, daquela banda sem nome, que do palco fez-me sentir mais vivo e feliz, meus agradecimentos... Por ajudar a construir mais um capítulo de minha história, por fundamentar mais um pedaço na minha estrada.
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[Estranho é gostar tanto do seu all star azul. Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras satisfeito sorri... (Nando Reis)]
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

...Menino Homem...

E então, um dia, o menino fez-se homem...

Já não queria mais carros puxados nas pedras por cordinhas imundas... Deixou de lado as bolinhas de gude, os cowboys de plástico e a pipa rasgada...

Trocou o chinelo de dedo, amarrado com arame, por um mocassim bem engraxado, quase podendo ver o seu reflexo... A camisa nunca mais será sem botões...

Colocou uma agenda, com poucos nomes ainda, sobre aquele caderno surrado e cheio de orelhas... Jogou a borracha fora, já que não pode mais errar a escrita...

Tirou da cabeça o boné e com carinho afagou com creme o cabelo, cabelo este que não mais pode estar desgrenhado... A sujeirinha de graxa no rosto fora substituída por uma espessa barba...

Largou as mãos da mãe e correu, distante estava de ser aquele menino indefeso à procura de colo... E a bicicleta está agora enferrujando, num canto empoeirado da garagem...

Não precisa mais preocupar-se com o balançado da sua bagagem de mão, esta não é mais uma lancheira para o recreio... Não há desenhos, nem giz de cera e nenhum sorridente sol...

O menino jogou-se... E jogou-se com toda a coragem que só ele tem...

Agora o menino, que ainda conserva seu sorriso maroto, descobre caminhos, percorre estradas, descansa tranquilo sob uma árvore de copa espessa, degustando o ‘ser feliz’...

Agora, o menino ri-se do garoto inseguro que antes fora, olha pra dentro de si e encontra o homem que sempre sonhara ser...

Sonhe homem menino... Sonhe a realidade que tens e faça dela vida plena, sonhe a capacidade que tens de amar e de se deixar ser amado, sonhe e faça-me sonhar essa felicidade contigo! Sonhe!